quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Palocci rejeita Saúde e deverá ir para as Comunicações

EM - Denise Rothenburg, Leonardo Cavalcanti e Vicente Nunes

Setores intocáveis foram definidos nessa terça-feira com a ajuda de Lula

Brasília – A decisão de anunciar logo os ministros da área econômica e de blindar esse setor da influência dos aliados foi tomada na reunião da presidente eleita Dilma Rousseff com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na última terça-feira. Ali, os dois traçaram um cenário geral do governo, com a assessoria do ex-ministro da Fazenda e médico Antonio Palocci, que aproveitou e avisou para onde não quer ir: o Ministério da Saúde. Além de listar os cargos que devem ficar restritos ao comando de Dilma, eles fixaram três níveis de escolhas dos ministros.

No primeiro platô do governo, o econômico, estão áreas cujo comando Dilma não abrirá aos aliados. A justificativa é a de que o setor de financiamento é estratégico e tem que atender diretamente a política definida pelo Palácio do Planalto, sem influência de terceiros.

A Caixa Econômica é considerada o coração do projeto Minha casa, minha vida, um dos programas que Dilma pretende acelerar no ano que vem. Ela, no entanto, tem dúvidas sobre a manutenção de Maria Fernanda Ramos Coelho no comando da Caixa, até porque a instituição foi criticada na reunião do Conselho Político por atraso na liberação das obras.

Quanto ao Banco do Brasil, a presidente eleita deseja manter Aldemir Bendine. O problema é que ele vem sendo cotado também para assumir a Presidência da Vale, na hipótese de Roger Agnelli deixar o cargo. A Petrobras entrou nesse rol por conta do pré-sal. Na avaliação de Dilma, a empresa está bem.

Quanto à própria posição no governo, Palocci ponderou com Dilma e Lula que, se fosse para a Saúde, não teria como participar do centro nervoso das decisões, das reuniões diárias da coordenação, uma vez que a área é complexa demais para que o ministro absorva outras funções. Desde então, Dilma passou a cogitar a presença de Palocci no Ministério das Comunicações, que hoje é da cota do PMDB de Minas Gerais.

Absolvido do caso da quebra de sigilo do caseiro Francenildo ,em agosto do ano passado, Palocci tem confidenciado a amigos que não gostaria de um cargo de exposição total, que pudesse trazer tudo à tona. Nem tampouco algo que lhe deixe fora da coordenação do governo que está ajudando a montar. Dilma ainda não bateu o martelo, mas a tendência é entregar ao ex-ministro a tarefa de montar o serviço de banda larga, a reestruturação da Telebras e, em conjunto com essas atividades, um assento na coordenação de governo. Não será a primeira vez que um chefe do Executivo adota esse modelo.

Se esse desenho for mantido até 15 de dezembro, Comunicações será um ministério incluído no segundo bloco de cargos, dentro do cenário de três fases que Dilma montou com Lula no início da semana. Esse grupo entra na cota dos partidos, mas fica naquele lusco-fusco em que o ministro é mais da cota pessoal da presidente eleita do que propriamente indicação partidária. É nesse contexto que cabe a indicação de Palocci e a de José Eduardo Cardozo, cotado para a Justiça, e ainda o Ministério de Desenvolvimento Social. O terceiro bloco é aquele de livre indicação pelos partidos.

Rodízio Mesmo nos cargos para os quais os partidos vão indicar nomes, a presidente eleita não pretende deixar correr solto e está mesmo disposta a fazer um rodízio na Esplanada. A ideia é evitar os "feudos" a que já se referiu o presidente do PT, José Eduardo Dutra, em entrevistas, como uma espécie de aviso aos interessados. Dilma pretende oxigenar, trocando equipes que estão na mesma seara há anos. Caso do Ministério dos Transportes, que tem Alfredo Nascimento como ministro desde abril de 2004.

Em 2006, ele saiu para concorrer ao Senado e, eleito, voltou ao cargo. Agora, derrotado para o governo estadual, não deverá ter a mesma sorte, até porque nomear quem perdeu a eleição abre um precedente que Dilma pretende evitar. Se Fernando Haddad deixar o Ministério da Educação, será mais por esse critério do que pelo Enem. Isso sem contar a pressão do PT paulista para abrigar Marta Suplicy ou mesmo Aloizio Mercadante.

Barbas de molho Outros aliados que devem colocar as barbas de molho e não esperar muito são o PP e o PTB. Ambos ficaram fora da coligação de Dilma, e isso será considerado, avisam os integrantes da equipe de transição. O PP só teve parte da bancada apoiando a petista. O PTB participou oficialmente da campanha de José Serra (PSDB). Sendo assim, será bem recebida a indicação do senador eleito Armando Monteiro Neto (PE) para ministro de Industria e Comércio, mas a pasta do Turismo ficou mais distante.

Setores como Correios e Infraero também terão capital aberto. A ideia de Dilma é colocar uma gestão mais profissional, assim como nas agências reguladoras de vários setores — Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), de Petróleo e Gás (ANP), de Telecomunicações (Anatel), Transportes Terrestres (ANTT), Águas (ANA) e Vigilância Sanitária (Anvisa). Mas essa é outra etapa, até porque, no caso das agências, todos têm mandato.

Blindagens e sondagens

Confira os cotados e os confirmados por Dilma na área econômica, nos bancos, nas agências e no Planalto:

Ministério da Fazenda

Guido Mantega está confirmado. Para Dilma, é o ministro ideal. Não vai lhe fazer sombra nem contestar suas decisões para a área econômica. A presidente eleita foi convencida por Lula de que Mantega fez um trabalho positivo no auge da crise — o Brasil foi um dos primeiros países a sair das turbulências provocadas pelo estouro da bolha imobiliária norte-americana. Também não tem fixação pela meta de superávit primário de 3,3% do PIB.

Banco Central

Henrique Meirelles está praticamente fora. Para Dilma, o presidente do BC já cumpriu a missão nos oito anos em que comandou a instituição. A presidente eleita vê Meirelles como uma sombra em questões econômicas, sobretudo porque exige autonomia para definir a taxa básica de juros. Hoje, há dois nomes na mesa de Dilma para o comando do BC: Luiz Carlos Trabuco, presidente do Bradesco, e Fábio Barbosa, presidente do Banco Santander e da Febraban. Dilma acredita que o BC precisa de alguém com trânsito no mercado. Caso nenhum dos dois aceite, a opção por ser por um nome técnico, o de Alexandre Tombini, diretor de Normas do BC.

Ministério do Desenvolvimento

Armando Monteiro Neto é o nome mais forte para o cargo de ministro. Eleito senador por Pernambuco, Monteiro deverá ser nomeado para a pasta dentro da cota do PTB. É bem avaliado por Dilma e pelo presidente Lula. Deve ter papel fundamental na elaboração de medidas que deem maior competitividade à indústria.

Ministério do Planejamento

Miriam Belchior é a mais cotada, pois Dilma quer transferir para a pasta a gestão de todas as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e do Minha casa, minha vida. Para a presidente eleita, não há por que o Planejamento ficar só com a gestão da máquina pública e com o controle de servidores.

ESTATAIS E BANCOS

Caixa Econômica Federal

A Presidência da instituição ficará com o PT, mas dentro da cota pessoal de Dilma. Embora a presidente da Caixa Econômica, Maria Fernanda Ramos Coelho, tenha bom trânsito com a presidente eleita, há o reconhecimento de que a instituição ganhou maior dimensão e a atual titular do cargo não está desempenhando o papel a contento. É grande a queixa dos prefeitos contra a Caixa. Dilma aceita dividir as vice-presidências com os partidos aliados, que já estão dentro do banco.

Banco do Brasil

A Presidência também será ocupada por um nome da estrita confiança da presidente eleita, podendo também sair do PT. O atual presidente, Aldemir Bendine, deve ficar, no máximo, até fevereiro no cargo. Dilma aceita dividir as vice-presidências com os partidos aliados, que já estão dentro do banco.

Petrobras

José Sérgio Gabrielli deve permanecer na Presidência da estatal por pelo menos dois anos. Dilma acredita que, devido à importância do pré-sal e do porte dos investimentos da Petrobras — US$ 224 bilhões até 2014 —, é melhor não mexer com Gabrielli num primeiro momento. Depois, ele pode seguir para o governo da Bahia como secretário de estado e disputar a sucessão de Jaques Wagner. As diretorias entrarão no rateio político.

BNDES

Luciano Coutinho deve ser mantido na Presidência da instituição. Ele era cotado para o Ministério da Fazenda, mas acabou preterido por Guido Mantega. Terá papel decisivo no financiamento de obras do PAC, especialmente a Usina de Belo Monte e o trem-bala.

Comunicações e Correios

A atual diretoria será demitida. O presidente da estatal será nomeado assim que Dilma escolher o ministro das Comunicações — entre os cotados para a pasta está Antonio Palocci. Até agora, a opção será pelo preenchimento das diretorias dos Correios por técnicos. A estatal foi dilapidada ao ser dividida entre políticos.

Infraero

A atual diretoria será demitida. O futuro presidente será nomeado diretamente por Dilma, com a missão de abrir o capital da empresa em bolsa de valores. A estatal é fundamental para que o país não falhe na organização da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016. A ordem será tirar os aeroportos do país do atoleiro em que se meteram.

*Todos os cargos do Planalto serão de escolha da presidente eleita: secretaria-geral da Presidência da República, hoje ocupada por Luiz Dulci; Casa Civil, onde está Carlos Eduardo Esteves Lima; a chefia de gabinete da Presidência, onde despacha Gilberto Carvalho; e o Ministério de Relações Institucionais, sob o comando de Alexandre Padilha. Entram nesse lote ainda a Casa Militar e a Agência de Inteligência (Abin). Até o momento, a única aposta dos integrantes da equipe de transição é a nomeação de Giles Carriconde para a chefia de gabinete. Maria das Graças Foster é cotada para a Casa Civil ou para substituir Gabrielli na Petrobras.

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