terça-feira, 31 de agosto de 2010

Correios - Carteiro sonha com a estabilidade

HOJE EM DIA - Sidney Martins

Maioria do eleitorado se sente humilhada pelo mau uso das verbas públicas e outras práticas

Otimista, batalhador e com a autoestima elevada, o brasileiro vai votar em outubro com orgulho de ser brasileiro, mas ainda envergonhado com o cenário político nacional. Pesquisa feita pela empresa República - Opinião dos Brasileiros indica que 67% do eleitorado do país, ou 91 milhões dos 135,9 milhões de eleitores aptos para o pleito deste ano, sentem-se humilhados pelos partidos e políticos, pelo mau uso das verbas públicas e pela má qualidade dos serviços prestados.

Há uma unanimidade negativa com relação à forma como a Nação é governada, mas o brasileiro, satisfeito com a melhora na sua qualidade de vida, tende a ter um comportamento eleitoral conservador.

Essa nova alma nacional no século XXI, 25 anos depois da redemocratização, está inserida no Projeto Brasilidade, desenvolvido pela República. Elaborado com 1.272 entrevistas, englobando homens e mulheres, de 18 anos a 70 anos, residentes nas principais cidades brasileiras e pertencentes às classes A, B, C, D e E (critério Brasil), o projeto aborda a autopercepção do brasileiro 2010.

Revela a base de uma nova sociedade no país, mais complexa, rica, amadurecida e informada, presente em três perfis identificados na pesquisa: os que lutam pela sobrevivência (38%), os que aspiram pela estabilidade (26%) e os que buscam aprimoramento (36%).

O objetivo da pesquisa não foi o de identificar a tendência do eleitorado, mas o resultado está bem conectado com o atual contexto político-eleitoral. Com maior concentração nas classes C, D e E, o grupo dos que lutam pela sobrevivência, por exemplo - representando 82% dos brasileiros, sendo 56% mulheres, com mais de 40 anos - se diz feliz, otimista e patriota, pois acha que a vida tem melhorado nos últimos anos. Para esse segmento, o poder de compra é mais importante do que ser bem atendido.

Este grupo, que é o público-alvo dos programas sociais, carrega a enorme vontade de ir além dessa melhora e não aposta em aventuras. Um contingente de 61% do grupo tem vergonha, sobretudo, dos políticos e dos partidos.

É o caso de dona Terezinha Cândida Maciel, 51 anos, casada, um casal de filhos. Cega desde os 9 anos, vítima do glaucoma, é assistida pelo Bolsa Família (recebendo R$ 112 por mês), mas toda sexta-feira pode ser encontrada no Espaço Cidadania, na Avenida Bernardo Monteiro, em Belo Horizonte, fazendo tricô. Artesã desde 1981, Terezinha avalia que a vida “melhorou 60% de uns anos para cá”, sobretudo no combate ao preconceito com os deficientes físicos.

Morando em casa própria na região de Venda Nova, Terezinha não guarda rancor por não poder enxergar desde menina. Pelo contrário, valoriza a saúde que tem para continuar na luta, tricotando e ganhando um dinheirinho extra. Acha que o país ainda está “um pouco custoso”, principalmente, quanto à violência, mas acredita que vai no rumo certo. “Mudar, para quê? Só se for para melhor”, afirma.

Preocupação com a valorização profissional

Entre os brasileiros que querem estabilidade, há certa distribuição desse perfil entre as classes sociais identificadas na pesquisa, embora com maior concentração entre os das classes A, B e C, sobretudo homens (58%). Também conservadores são brasileiros na faixa etária entre 25 e 50 anos que se preocupam, especialmente, com a valorização profissional, moradia, educação e trabalho.

Por geralmente cuidar da família, o indivíduo desse grupo reclama das mazelas do país e espera que alguém dê conta de resolvê-las, pois ele não tem tempo. No mesmo patamar da média nacional, 67% deste segmento têm vergonha dos políticos e dos partidos nacionais.

Sonho com a estabilidade

Trabalhando oito horas por dia como carteiro dos Correios, em Belo Horizonte, Renato Adriano da Silva, 32 anos, solteiro, mora com a mãe em Vespasiano, na Região Metropolitana de BH. Tem o ensino médio completo, mas não cogita fazer faculdade. Sonha, sim, com uma estabilidade na vida. Além dos Correios, que lhe rendem um salário de R$ 1.700 por mês, toca uma sorveteria com a família, o que lhe garante boa renda extra. “Somando isso aí, e eu arrumando uma mulher que ganhe uns R$ 1.500, vai dar para levar uma vida razoável”, avalia.

Apesar do corre-corre diário e de não ter perspectiva de crescimento substancial nos Correios, Renato, a exemplo de dona Terezinha, tem uma visão conservadora sobre as eleições. Duvida da palavra dos políticos, mas acha que o presidente Lula tem feito um bom trabalho e descarta qualquer mudança de rota. “Temos de garantir o que foi feito e melhorar, melhorar”, ressalta. “Não vale a pena correr risco”, pondera.

Concentrado sobretudo nas classes A e B, os brasileiros na situação de aprimoramento valorizam primordialmente os aspectos relacionados ao lazer, a espiritualidade, o cuidado com relacionamentos pessoais e a qualidade de vida. O grupo é heterogêneo e reúne a elite econômica e cultural do país, acolhendo a maior parcela dos movimentos emergentes na cultura, estética, tecnologia, engajamento ecológico e consciência cidadã.

Mas, por se encontrar em posição privilegiada com relação aos demais brasileiros, mostra um lado etnocêntrico, preconceituoso e soberbo. Mesmo assim, 73% deste grupo têm vergonha dos políticos e dos partidos brasileiros. Estudante de engenharia elétrica em uma faculdade particular de Belo Horizonte, Evandro Dias, 23 anos, solteiro, vai votar pela terceira vez neste ano e avalia que o brasileiro não pode perder o que conquistou.

Levantamento aponta identidade nacional consolidada

Diferentemente do defendido por vários estudiosos do passado, o Brasil possui hoje uma identidade nacional consolidada, expressa em opiniões coesas entre os diferentes perfis socioeconômicos, que identificam características típicas dos brasileiros. De acordo com o sociólogo e cientista político Rodrigo Mendes Ribeiro, diretor-geral da República e coordenador do Projeto Brasilidade, o brasileiro inicia a década “com muita esperança e altivez”.

Ribeiro observa que, apesar da desigualdade ainda presente, a pobreza e a insatisfação diminuiram; a classe média aumentou, assim como a renda, o acesso à internet e o consumo de itens de conforto. Segundo ele, sete entre dez brasileiros acreditam que o povo tem hoje maior poder de compra. “Aumentou a percepção de melhora no país”, destaca.

Após identificar e analisar a mudança do cenário nacional, a pesquisa da República tomou como ponto de partida a seguinte pergunta: a autopercepção do brasileiro também mudou? As respostas deixam claro que sim: com autoestima elevada, 78% dos entrevistados afirmaram ter “orgulho de ser brasileiro”; e há otimismo, com o futuro sendo visto com bons olhos. Conforme a pesquisa, o que mais traz orgulho aos brasileiros são as belezas naturais (46%), o Carnaval (33%), os símbolos nacionais (26%) e o povo (31%), pelo seu espírito, capacidade e jeito.

O famoso “jeitinho brasileiro”, em especial, que na visão de estudiosos e acadêmicos sempre foi associado a características predominantemente negativas, como a corrupção, ganhou uma dimensão bem mais positiva. É o atributo que, na visão dos entrevistados, mais define o que é “ser brasileiro” hoje: significa ser dotado de “criatividade”, “flexibilidade”, “improviso”, “jogo de cintura” e “um jeito de resolver os problemas mantendo a alegria”.

Mas o que faz com que as pessoas se sintam brasileiras? Pela pesquisa, predomina a visão do brasileiro como “batalhador”, com alta capacidade de superação; que mantém a alegria mesmo na adversidade; e faz uso do “jeitinho” como um recurso de adaptação social.

Como um “batalhador”, o brasileiro se considera um lutador permanente, que já nasceu em desvantagem - tem menos, pode menos, sabe menos. “Justamente por isso, transforma as fraquezas em fonte de energia; ele precisa de menos, aprende com a vida, adapta-se facilmente e inventa o que precisa”, diz Ribeiro. Em contrapartida, também com relação ao ser humano em geral, o brasileiro se considera menos amigo, menos inteligente, menos corajoso, menos competitivo, menos agressivo, menos consumista e menos estressado.

Embora não se veja como amigo, o brasileiro sabe que é solidário ao salvar quem precisa. Afinal, amanhã pode ser ele a precisar de ajuda. Conforme Ribeiro, “o brasileiro se acha menos amigo porque se estreitar as relações terá de ajudar a criar os filhos do amigo, emprestar dinheiro e oferecer o próprio nome para compras no crédito”. O brasileiro também se considera patriota, embora sinta vergonha dos governantes, dos políticos e da política.

Com módulos qualitativos e de quantificação, a pesquisa englobou todo o país. Do Sudeste, 55% dos entrevistados; 19% do Nordeste; 14% do Sul; 7% do Centro-Oeste; e 5% do Norte, sendo 48% dos entrevistados do sexo masculino e 53% feminino. A maioria dos entrevistados é jovem - 25,1% possuem entre 30 e 39 anos; seguidos de 21,9% com idade entre 18 e 24 anos; e 14,2% com idade entre 25 e 29 anos. Os entrevistados na faixa etária entre 50 e 59 anos são 12,1%; entre 60 e 64 anos são 3,5%; e entre 65 a 70 anos, 4,2%.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Companheiros, colegas, conterraneos e amigos.
Fiquem à vontade para comentar e/ou criticar.